Os Imigrantes Estão Por Trás da 'Vaga de Criminalidade' em Portugal?
“Os estrangeiros representam 20-30% da população prisional e a imigração está a provocar uma vaga de criminalidade em Portugal”
Os dados oficiais da DGRSP mostram que ~17% dos reclusos são estrangeiros — não 20-30%. A criminalidade global diminuiu enquanto a imigração aumentou. Os números são selecionados para criar uma impressão falsa.
O Que Estão a Dizer
André Ventura e o partido Chega afirmam regularmente que os estrangeiros representam 20-30% da população prisional e que a imigração é o principal motor do aumento da criminalidade em Portugal. Estes números são repetidos no parlamento, nas redes sociais e em eventos de campanha. A implicação é clara: os imigrantes estão a tornar Portugal perigoso.
Todos querem ruas seguras. Se as mudanças políticas estão a tornar as comunidades menos seguras, isso merece atenção séria. Mas atenção séria significa olhar para os números reais, não para versões arredondadas concebidas para provocar medo.
O Que Os Documentos Mostram
A População Prisional
A DGRSP (Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais) publica estatísticas prisionais oficiais. Eis os números reais:
| Categoria | Número | Percentagem |
|---|---|---|
| Cidadãos portugueses | ~10.200 | ~83% |
| Cidadãos estrangeiros | ~2.100 | ~17% |
| Total de reclusos | ~12.300 | 100% |
A percentagem de reclusos estrangeiros é aproximadamente 17%, não “20-30%” como afirmado. Inflacionar 17% para 30% quase duplica o valor.
17% É Desproporcional?
Os cidadãos estrangeiros representam cerca de 10% da população de Portugal e 17% da população prisional. Esta sobre-representação é real e merece análise. Mas o contexto importa:
| Fator | O que os dados mostram |
|---|---|
| Estatuto socioeconómico | Os reclusos estrangeiros são desproporcionalmente dos grupos demográficos mais pobres |
| Representação jurídica | Não-cidadãos têm menos acesso a apoio jurídico e maior probabilidade de detenção preventiva |
| Tipo de crime | Muitos reclusos estrangeiros estão em trânsito (rotas de tráfico de droga) e não são imigrantes residentes |
| Dados comparativos da UE | Percentagens semelhantes ou superiores de reclusos estrangeiros existem na Suíça (70%), Áustria (55%) e Alemanha (34%) — países que não vivem “vagas de criminalidade” |
A sobre-representação nas prisões correlaciona-se mais fortemente com a pobreza, não com a nacionalidade.
Tendências de Criminalidade vs. Imigração
Se a imigração estivesse a “alimentar uma vaga de criminalidade,” seria de esperar que a criminalidade aumentasse com o aumento da imigração. Aconteceu o oposto:
| Período | Tendência da imigração | Tendência da criminalidade |
|---|---|---|
| 2019-2024 | Residentes estrangeiros: +77% (590K → 1,04M) | Crime total: -12% |
| Per capita | População cresceu ~8% | Taxa de criminalidade per capita diminuiu |
Chegaram mais imigrantes. A criminalidade total desceu. Estes factos são incompatíveis com a alegação de que a imigração alimenta a criminalidade.
A Tática de Seleção Conveniente
A narrativa do Chega arredonda para cima (inflacionar 17% para “20-30%” torna o número mais assustador), ignora a referência (não menciona que a criminalidade global está a diminuir), confunde correlação com causa (um estrangeiro na prisão não prova que a imigração causa criminalidade), omite contexto socioeconómico (a pobreza, não a nacionalidade, é o preditor mais forte de encarceramento), e seleciona casos individuais (destaca crimes específicos cometidos por estrangeiros enquanto ignora que a vasta maioria dos crimes é cometida por cidadãos portugueses).
Este é um padrão usado por partidos de extrema-direita em toda a Europa. Não é exclusivo de Portugal, e não é sustentado pelos dados em nenhum lugar onde foi tentado.
Os dados oficiais mostram que os cidadãos estrangeiros representam aproximadamente 17% da população prisional de Portugal, não os 20-30% alegados. A criminalidade global diminuiu 12% durante um período de crescimento significativo da imigração. A alegação de que os imigrantes estão por trás de uma “vaga de criminalidade” é contradita pelas próprias estatísticas do governo.
A DGRSP publica dados prisionais. O RASI acompanha as tendências criminais. O Eurostat fornece comparações europeias. Os números estão lá para qualquer pessoa verificar.
Fontes e Documentos
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